PROSA E VERSO AO PÉ DA MONTANHA

Uma homenagem à escritora Martha Carvalho Rocha

 

(Por Cristiane Paracat)/Novembro, 2019.



Outro dia fui a Engenheiro Passos com minha amiga Adriana, que me ajudava na distribuição da revista VIVER. Lá batemos na porta da escritora Martha Carvalho Rocha. Eu mal sabia que estava na casa de uma resendense tão ilustre. Na verdade, fui entregar a revista a pedido do meu marido, amigo “das antigas” do casal Martha e Zé Leon. Confesso que não tinha ligado o nome à pessoa, numa mistura de falta de conhecimento e distração da minha parte (nesse caso, vale dizer que estou há pouco mais de um ano vivendo em Resende e conhecendo melhor os cantos e as pessoas dessa cidade).

Quando Martha abriu a porta para uma visitante inesperada, num dia chuvoso, me dei conta que ela era a escritora que, há cerca de um ano, passou por mim na Biblioteca Municipal de Resende e, de forma simpática e despretensiosa, me presenteou com seu último livro: “Clausura”. Eu acabara de ouvir sobre seu processo de criação, numa roda de conversa de autoras de Resende.  Abri o livro logo que cheguei em casa e, naqueles versos, entendi quem era a mulher de 78 anos, que mais cedo prendeu minha atenção contando sobre as intimidades de quem até hoje escreve à mão, em cadernos, como uma menina. Martha Carvalho Rocha vive poesia, na sua mais pura essência.

 

A Revista Viver fez a gente se esbarrar de novo, agora na porta da casa da autora. Me apresentei como jornalista, “esposa do Ferrão”, e ganhei um abraço carinhoso. Dias depois fui presenteada com outro livro de poesias de Martha: “Em Lugar Nenhum”. Folhear essa publicação nos enche de prazer. É um livro de uma beleza singela, na estética e no conteúdo, que, a meu ver, deve atrair até o mais desinteressado dos leitores. Um poema, em particular, revela o envolvimento da escritora com a arte e a cultura de Resende (Paixão pelo Passado, em foto na galeria) e me despertou ainda mais a vontade de conhecer a obra de Martha Carvalho Rocha.

 


Voltei a Engenheiro Passos, dessa vez com prévio aviso, para uma entrevista formal, mas a conversa fluiu como a de duas boas amigas, numa agradável noite de sexta-feira. Martha me apresentou seus livros, quinze publicações entre poesia e prosa. O primeiro, “Venha ver-me a qualquer tempo” (1975), é uma coletânea de crônicas escritas na temporada que morou nos Estados Unidos e foi publicado graças a esforços de uma amiga que fez o primeiro contato com editoras.  Mas a escritora vê só no terceiro livro um amadurecimento da sua obra. “Exercício Findo”, publicado pela Editora Record, em 1980, reúne curtas poesias. No prefácio da escritora Raquel Jardim, um resumo daquelas páginas: “poesia de sutilezas”.

 

Acho que ganhei a simpatia de Martha e tive a sorte de conhecer a escrivaninha antiga onde até hoje a escritora se debruça sobre sua arte, ao lado de uma janela voltada para o verde de Engenheiro Passos, entre livros e fotos de grandes autores com quem ela conviveu de alguma forma, como Carlos Drummond de Andrade ou Adélia Prado. Martha abriu a gaveta de um móvel antigo e me mostrou os cadernos que guardam as crônicas do futuro livro, à espera de uma oportunidade para ser publicado e, falante, me contou das motivações e paixões que a transformaram nessa exímia escritora.

 

Para desavisados, como eu, reforço que Martha Carvalho Rocha é de uma família bem conhecida em Resende.  Filha de Augusto de Carvalho, prefeito da cidade na década de 1950. A política foi herdada pelo irmão, Noel, enquanto que ela se deixou influenciar pelo lado artístico do pai. Seu Augusto tocava instrumentos, teve uma orquestra e gostava de reunir pessoas na fazenda Três Pinheiros para noites culturais, onde Martha, ainda menina, se fartava de música e poesia. A paixão pelas palavras foi introduzida pela mãe, Adriana Marchesine de Carvalho. A filha de migrantes italianos era culta, falava várias línguas e adorava livros. Umas das heranças deixadas a Martha foi sua biblioteca particular.


 

Um pouco de toda essa história está no livro “Priscas Eras” (2013) que, no subtítulo, revela uma curiosidade ímpar sobre Martha: “uma autobiografia de quem chegou à escrita, sem conhecer as letras”. Afinal Martha Carvalho Rocha estudou até o quinto ginasial. Mas como evoluiu como escritora e transitou entre grandes nomes da literatura brasileira? A explicação pode estar no conselho que Martha ouvia da mãe, como ela mesmo conta: “Eu publicava livros e não sabia porquê. Até que descobri que era para agradar minha mãe, já que ela me dizia sempre: talento é dado por Deus, desperdiça-lo é pecado”.

 

O talento de Martha Carvalho Rocha não está só nas palavras, está no jeito cativante de contar histórias, sejam elas escritas ou ditas num bom bate-papo. O tempo de conversa nem foi tão longo, mas voltei para casa com vontade de me aprofundar mais em personagens que, como ela, também fizeram história em Resende.

PROSA E VERSO AO PÉ DA MONTANHA PROSA E VERSO AO PÉ DA MONTANHA Reviewed by VIVER Agulhas Negras on novembro 06, 2019 Rating: 5

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