Índios Puris: descendente quer manter viva a história da Aldeia da Vila da Fumaça

 

Pesquisador Francisco Donizetti está em busca de apoio para instalar Museu Etnográfico sobre os Puris na Vila da Fumaça, em Resende. Ele conta que muitos descendentes indígenas não se identificam como tal; “em pleno século XXI, isso ainda pode ser um reflexo do medo e da vergonha de sofrer algum tipo de preconceito”. 


Retratos de índios puris feitos pelo pintor alemão Johann Moritz Rugendas no século XIX (reprodução internet) 

Nesse Dia do Índio, a Revista VIVER não pode deixar de homenagear os Puris, índios que habitaram Resende e Itatiaia, e um pouco da história dessa etnia que deixou sua descendência na região da Agulhas Negras. Conversamos com Francisco Donizetti Machado da Rocha, morador da Vila da Fumaça, distrito de Resende que no passado foi uma aldeia indígena dos Puris. Francisco Donizetti nasceu na Vila da Fumaça e é um apaixonado pela história dos seus antepassados. Ele diz que descobriu já adulto que seus ancestrais foram índios. Uma revelação feita tardiamente pela avó materna mas que despertou nele o interesse em saber mais sobre as famílias que hoje residem nesse distrito de Resende. Começou aí a pesquisa de Francisco, que hoje levanta uma bandeira: ele defende a instalação de um museu etnográfico no distrito.

UM POUCO DA HISTÓRIA DOS PURIS

Os Puris habitavam as terras que ficavam à margem esquerda do Rio Paraíba do Sul. Era um povo nômade que percorria uma região que hoje compreende os Estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Os livros de história contam que, quando colonizadores chegaram a esta região de Resende, os índios foram escravizados ou mortos pelos brancos. Alguns relatos mostram a crueldade na tentativa de exterminar os índios. Ainda no século 18, nos idos de 1780, os colonizadores travaram uma verdadeira caçada para dizimar os Puris da região de então Vila Nossa Senhora da Conceição do Campo Alegre da Paraíba Nova. Além de batalha sangrenta, eles teriam espalhado a varíola entre os índios.  

Muitos Puris resistiam ao massacre fugindo para as terras altas da Serra da Mantiqueira, entre a Serrinha do Alambari, Visconde de Mauá e localidades mineiras. Um grupo, rendido pelos colonizadores, foi confinado na Aldeia de São Luiz Beltrão, criada em 1788 por ordem do 4º. Vice Rei do Brasil, Dom Luiz de Vasconcellos e Souza, e ficou sob a guarda do Padre Francisco Xavier de Toledo. A aldeia é hoje o distrito da Vila da Fumaça, que fica a 33km do centro urbano de Resende.

DESCENDENTES DE PURIS 

Francisco Donizetti Machado da Rocha, morador da Fumaça e pesquisador da história dos Puris

Hoje a população de índios Puris é muito pequena. Estima-se que pouco mais de cem pessoas, a maioria vivendo em comunidades de cidades mineiras. No início dos anos 2000, Francisco Donizetti Machado da Rocha começou a entrevistar a população mais idosa de Fumaça e a pesquisar a genealogia das famílias para conhecer suas origens. Ele começou assim a guardar alguns documentos e depoimentos que podem servir de acervo para contar um pouco da história da presença índigena na região e na Vila de Fumaça. Mas Francisco Donizetti também ressalta que a maioria dos moradores da região não se reconhece como descendente de índios. “Em pleno século XXI, isso ainda pode ser um reflexo do medo e da vergonha de sofrer algum tipo de preconceito.”

Francisco também é um conhecedor das chamadas “Tocas”, espécies de cavernas onde os índios se abrigavam na região e coleciona peças, artesanatos e alguns documentos que podem ajudar a manter viva a história dos Puris. Por isso ele batalha pela criação de um museu etnográfico na Vila da Fumaça.  Já protocolou um pedido na prefeitura de Resende e conseguiu na Câmara Municipal a apresentação de uma  Indicação do vereador José Antônio PHV, para transformar uma casa existente na praça principal da Vila da Fumaça em museu. Por enquanto ele faz exposições itinerantes, com o pequeno acervo. Este ano ele  levou o acervo para o Centro Comunitário Educacional Esperança do Futuro, no bairro Jardim Beira Rio.

 Carta de 1823, do Frei Manoel que cita os índios Puris da Aldeia São Luiz Beltrão (Fumaça) 

Pequeno acervo de peças e adereços indígenas








Desenho feito pelo filho de Francisco Donizetti para a campanha de criação do Museu Aldeia Fumaça




Índios Puris: descendente quer manter viva a história da Aldeia da Vila da Fumaça Índios Puris: descendente quer manter viva a história da Aldeia da Vila da Fumaça Reviewed by VIVER Agulhas Negras on abril 19, 2021 Rating: 5

8 comentários

  1. Muito importante essa iniciativa de um Museu Etnográfico na Vila da Fumaça, para poder contar um pouco da história dos moradores do Distrito , tão esquecido pela Prefeitura. Melhorar a estrada de acesso a Fumaça com asfaltamento dela e criação de passagens para animais nas áreas de mata, como se fez no caminho de Mauá, além de revitalizar o acesso a Cachoeira de Fumaça ajudariam a revitalizar o turismo na região, completando com o Museu atrativos que dariam visibilidade a comunidade atual e uma luz sobre o passado histórico de Fumaça, antiga Aldeamento Puri de São Luiz Beltrão.

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    1. Marcelo, obrigada pela sua participação aqui. Você fez ponderações interessantes. Quem sabe vale uma outra reportagem sobre essa importância de reestruturar a Vila da Fumaça para fomentar o turismo. Vamos colocar em pauta!

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  2. Parabéns pelo trabalho e divulgação. Quais fontes historiográficas vocês estão se baseando para documentar essa História?

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    1. Olá, essa reportagem foi feita em cima do trabalho do Francisco, citado na reportagem. Ele é um conhecedor dessa história. A passagem que relata a presença dos índios na região e a formação da Aldeia em Fumaça foi retirada do site da prefeitura de REsende, que fala da história da cidade e seus distritos.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Muito interessante o trabalho. Acho importante a retomada dessa memória. Você teve contato com os puris que estão na aldeia Maracanã, talvez um diálogo enriqueça a pesquisa

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    1. Olá, obrigada pelo comentário e pela dica. Fiz essa reportagem para destacar o trabalho do Francisco, que é nascido em Fumaça e um interessado nessa história. Mas, com certeza, será um prazer, em futuras reportagens, até mais profundas sobre o tema, ir mais a fundo nessas questões e quem sabe ter esse acesso a Aldeia Maracanã.

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  5. Muito interessante o trabalho. Acho importante a retomada dessa melhora. Você teve contato com os puris que estão na aldeia Maracanã, talvez um diálogo enriqueça a pesquisa

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